Um olhar sobre o Rio de Janeiro

Vista do Morro Santa Marta, em Botafogo, Rio de Janeiro. Foto autoral.

E aí, tudo bem? Meu nome é Rio de Janeiro, mas pode me chamar de mosaico. Também posso atender pelo nome de miscelânea. Mistura, só para os íntimos. Não dou confiança pra qualquer um que simplesmente chega. Não é bem assim que a banda toca. Antes tem que rolar um contato visual, desde que não seja duradouro porque senão fico tímida e desvio o olhar.

Você pode me tocar, não tem problema. Quer dizer, depende da situação. Você vai perceber naturalmente quando você pode e quando você não pode me tocar. Uma pista: um sorriso meu de canto de boca, quase tímido, é um sinal de que você pode.

Você pode estar vestida de qualquer jeito, desde que assuma o que está vestindo. Eu não vou criar muito problema se você entrar de sandálias nos meus prédios, mas a sua atitude tem que ser compatível. Não adianta forçar uma leveza se você está preocupada com cacos de vidro ou com a sujeira das ruas. Se estiver usando sandálias, relaxe. Do contrário, um sapatinho baixo fechado resolve tudo. Sapato alto? Sei lá, você está pensando em ir pra uma festa, amiga? Se sim, me chama? Tô dentro! Adoro festas, principalmente as de rua.

Sei que sou bonita, tenho uma boa genética. Mas nem sempre me sinto assim. Depende do tempo. Tendo sol me sinto melhor, claro, porque a luz evidencia as coisas que Deus me deu. Tendo chuva, meu lado caótico aparece. Não sei lidar muito bem com essa coisa de água, apesar de ter ‘Rio’ no nome. Louco, né? Pode ser porque muitos que moram em mim não saibam administrar bem seus descartes e isso acaba atrapalhando um pouco a fluidez das coisas. Mas não quero mais falar disso, afinal de contas, todo mundo tem seus problemas.

Eu adoro posar para fotos, mas não sei e nem gosto de tirar selfies. Eu me atrapalho um pouco com essas tecnologias e normalmente escolho ângulos errados, deixo embaçar a foto e isso acaba revelando coisas não tão bonitas a meu respeito. Sei lá, acaba saindo concreto demais na foto e pouca vegetação, sabe? Por isso adoro posar para fotos, gosto do olhar do outro sobre mim. Talvez eu seja mais bonita de longe mesmo, e daí?

Sou cheia de curvas e me orgulho disso. Sou reconhecida e desejada por isso. Criticada também. Reclamam muito da minha mobilidade. Eu ein, gente estranha que nunca está satisfeita. Eu tenho tanta coisa: ônibus, metrô, bonde, trem, barca e o pessoal ainda reclama. Tudo bem que os horários não batem muito bem, cada coisa tem a sua lógica, o seu ambiente próprio, o seu cheiro. Uns são frios demais, outros calorentos demais. Alguns cheios, outros vazios, mas pô, eles existem. Dá um desconto, né?

Eu tenho várias primas perto de mim. Tem a Niterói, a Caxias, a Nova Iguaçu entre outras que não vou muito com a cara. Torço o nariz mesmo. Tem horas que elas me incomodam pois falam muito alto, não gosto. Tadinhas são até legais, mas não tão desejadas e bonitas como eu. Tem horas que a gente precisa reconhecer a nossa superioridade, né? Arrogante, eu? Imagina! Tenho boa autoestima, só isso.

Queria falar um pouco dessa minha prima e vizinha, a Niterói. Gosto dela, ela é muito simpática, confiável, disponível e ainda me trata super bem. Fica da janela da casa dela tirando foto minha, dando tchauzinho, mandando beijo, uma fofa. Temos uma relação bem tranquila, empresto minhas roupas, uso os sapatos dela, frequentamos uma a casa da outra muitas vezes ao longo de um mês. O nossa troca é intensa, falamos de amores, trabalhos, casa, sonhos e tudo o que der na telha. Talvez até possa dizer que a nossa relação tem as cores azul, verde, marrom, cinza e branco. Dá uma paisagem bem bonita, adoro aparecer na foto com ela.

Olha, preciso ir. Depois a gente se fala. Me liga. Beijos!

[Exercício de observação proposto pela professora Marina Frydberg dentro da disciplina Cultura Urbanas/PPCULT. Realizado em 15 de abril de 2015]